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LIVROS DE WANDERSON CASTILHO
Editora Matrix
Mentira, um rosto de muitas faces
  

Em seu novo livro, Mentira, um rosto de muitas faces, Wanderson lança mão de sua expertise nos campos da perícia digital e análise comportamental para narrar como aplica a técnica de detecção de mentiras em seu trabalho de perito em segurança eletrônica. Faz isso usando como exemplo casos reais, o que dá à narrativa o sabor e até mesmo o suspense de uma boa história de detetives.

De quebra, o livro é uma preciosa introdução à técnica de detecção de mentiras, além de ferramenta valiosa a quem se preocupa com os riscos trazidos pela tecnologia do mundo contemporâneo.

Alguns casos narrados no livro estão disponíveis para leitura:

Um calote na Flórida

Escândalo na Universidade

 

Escândalo na universidade

A farra já durava meses. Alguns privilegiados alunos de uma das turmas do curso de Medicina de uma universidade em São Paulo recebiam, por e-mail, as questões das provas de três disciplinas, três dias antes de serem aplicadas. Uma loucura. Mas, como quase sempre acontece nesses casos, um dia a coisa sai do controle. Os participantes não resistiam a trazer novos amigos para o esquema.

É a velha história – eu lhe conto algo, mas peço segredo, aí você revela para um amigo, que garante que não diz a ninguém, mas não resiste e fala para a namorada... Até que, um dia, o caso chegou aos ouvidos de professores do curso, que imediatamente o reportaram à reitoria. Mas, claro, quando o caso chegou ao conhecimento do reitor da instituição, já era assunto de todas as rodas de conversa da hora do intervalo. Um escândalo.

Foi nesse momento que entrei na história. A universidade, desesperada com o vazamento e o prejuízo que isso traria para sua reputação, queria descobrir quem eram os responsáveis. Para começar a investigação, pedi ao coordenador do curso que me apontasse, entre os 80 alunos da turma, os 10 que tinham as melhores notas. Com autorização da universidade, que abrira uma sindicância para apurar o caso, entrevistei-os, um a um, registrando as conversas em vídeo para depois analisá-las com calma.

Cada entrevista seguia o mesmo padrão. Antes de mais nada, uma conversa relaxada, informal, com perguntas padronizadas, cujas respostas eu já sabia de antemão quais seriam, de forma a traçar o padrão de comportamento de cada um dos investigados. Depois, começava a inquiri-los sobre o vazamento das provas, com todo o cuidado – até porque, provavelmente, muitos ali eram inocentes. Além de perguntar se haviam recebido o e-mail com as questões, também buscava saber se os alunos tinham ideia de quem poderia estar por trás do esquema, se tinham um suspeito para me apontar.

Essa é uma pergunta estratégica. Minha experiência mostra que quase sempre o verdadeiro culpado tentará escapar apontando outro suspeito, automaticamente se excluindo da lista de prováveis autores da fraude. De cara, não tive sucesso – os entrevistados negaram conhecimento do esquema e também disseram nunca ter recebido as provas vazadas.

Na análise dos vídeos, porém, o comportamento de um dos alunos me chamou a atenção. Suas microexpressões faciais revelavam sinais claros de medo e ansiedade. Além disso, ele desviava demais o olhar e emitia outros indicadores claros de mentira durante as respostas, como levar a todo momento a mão à orelha. Valia a pena chamá-lo novamente para uma conversa. Mas dessa vez eu usaria uma estratégia diferente.

Quando o estudante, Renato, chegou à sala de entrevistas onde já havíamos conversado, encontrou um cenário diferente. Em vez da mesa à qual nos sentáramos, um de cada lado, na primeira vez, dessa vez eu o aguardava em pé. Aquilo já o deixou nervoso. Após algum tempo de conversa, o rapaz acabou por confessar que mentira da primeira vez. Havia recebido, sim, duas provas em um mesmo e-mail. Ainda assim, continuava a emitir sinais de que mentia – desviava seguidamente o olhar, punha a mão na orelha e nos cabelos e buscava se afastar fisicamente de mim. Tudo isso indicava, claramente, discordância com o que dizia – Renato insistia em afirmar que não sabia quem era o remetente das questões.

Era hora de usar minha estratégia. Comecei a me aproximar lentamente dele, de forma a colocá-lo numa situação de desconforto com relação ao seu espaço privado. O cérebro humano percebe essa aproximação excessiva como uma ameaça e passa a dedicar atenção primordial a ela. Com isso, a criação de mentiras fica mais lenta e difícil. Nesse momento, disse a Renato que já sabia que ele estava escondendo a verdade e que deveria, enquanto ainda tinha tempo para isso, revelar tudo o que sabia.

O rapaz confessou. Começara o esquema havia meses, criando um endereço de e-mail anônimo para repassar as questões que recebera para três garotas da sala, com o objetivo de amealhar cúmplices para o esquema. Renato era o ponto de ligação entre os alunos e o homem que descobrira como invadir o sistema de computador da universidade, onde as provas ficavam armazenadas, e resolvera se beneficiar disso. Tratava-se de um ex-aluno do curso de Medicina, chamado Ogier, já médico formado.

Renato também revelou que as provas não eram distribuídas de graça, eram vendidas a estudantes homens. Quanto às mulheres, elas eram usadas como isca para programas com Ogier. O ex-aluno se dava ao luxo de escolher as garotas com quem gostaria de dormir, e então propunha o esquema. Para comprovar que falava a verdade, enviava um e-mail – com o endereço anônimo – com uma ou duas questões. Depois, fazia a aproximação e apresentava os termos da negociação – dinheiro, para os homens, ou sexo, para as mulheres. E todos os abordados toparam a proposta.

A fraude virou caso de polícia. A universidade registrou um boletim de ocorrência. Com isso, a polícia realizou operações de busca e apreensão simultâneas nos computadores de 31 suspeitos, identificados como beneficiados com o vazamento das provas. Após terem a participação no esquema comprovada pela Justiça, foram todos sumariamente expulsos da instituição – mesmo os que receberam as provas uma única vez.

Renato, réu confesso, teve uma pena mais branda após aceitar colaborar com as investigações, apontando as pessoas que haviam recebido os e-mails. Não foi expulso. Em vez disso, precisou refazer todas as provas dos últimos meses. Acabou reprovado. Apelidado de X-9 pelos colegas, tempos depois pediu transferência para outra faculdade. Ogier, o responsável pelo vazamento das questões, responde a processo na justiça federal e pode ter o diploma de médico cassado.

A fragilidade da segurança de seu sistema interno de informática custou muito caro à universidade. Além das centenas de milhares de reais gastos às pressas num novo sistema, a instituição precisou fazer uma intensiva campanha de mídia para tentar reparar o estrago que o escândalo causou à sua imagem. Toda a metodologia de elaboração e armazenamento das provas foi modificada. Nem mesmo o reitor escapou à pressão gerada pelo caso – acabou destituído do cargo tempos depois. Ainda assim, a reputação do curso de Medicina nunca mais foi a mesma.

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